Foco!
A flecha solta no ar, escreveu o poeta hindu Tagore, grita louca de alegria: Sou livre! Sou livre! Engana-se: já teve seu destino traçado pelo arqueiro.
Bem, tirando as inegáveis reflexões filosóficas que se podem tirar desta frase, fica evidente que se Tagore fosse um arqueiro, teria pensando um pouco mais antes de escrever tal frase.
Não basta apenas que o arqueiro deseje, queira ou mire no alvo - existe uma dezena de outros fatores que mudam a trajetória da flecha. Na verdade, tratam-se de detalhes.
A respiração, a postura, a largada, os ombros, o vento - tudo isso se soma à trajetória da flecha levando-a, muitas vezes, para destinos não desejados pelo arqueiro (o pior deles, é claro, é o limbo conhecido como "M" - errar o alvo!).
O arco e flecha é a arte da repetição, da constância, da absoluta concentração ao momento presente.
"Foco", em uma palavra.
É preciso que corpo e mente estejam juntos.
Mais do que algum conceito metafísico ou filosófico trata-se do mais absoluto pragmatismo. Trata-se de um verdadeiro sistema cibernético - onde a unidade arqueiro / arco / alvo é a única coisa que existe.
Ontem eu pude testar esses conceitos pela enésima vez - não só pela parte técnica (tiros grupados que de repente começam a se dispersar - o que me fez rever lentamente cada passo do tiro, a prestar atenção a detalhes) mas também por aquilo que não parava de rodar pela minha mente: pensamentos, idéias, frases tudo que simplesmente não precisava estar ali...
Então aos poucos fui me conscientizando disso - de quão pouco estamos presentes às coisas, às atividades, ao que temos nas mãos.
Foco!
Meus tiros melhoraram... mas ainda fiquei na barreira dos 514...
Confesso que está me dando alguma ansiedade de mudar, avançar, sair desse ponto onde estou parado há meses. Claro que confio nas decisões do Fernando e do Sato (meus treinadores) de manter no básico com o novo arco pelo final deste mês, mas...
Enfim - outra lição do arco que se estende para a vida.

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