Por que o Arco?
Qualquer atividade, quando feita com a atitude mental correta, pode se tornar um veículo ou um caminho para o auto-aperfeiçoamento e descoberta pessoal.
Virtualmente qualquer coisa que exija dedicação, tempo, superação se torna rica em metáforas e símbolos para o crescimento interior.
Claro que eu não estou falando aqui de "revelações", "cultos" ou nada místico ou religioso. Não se trata disso. A coisa é mais "modesta" e seguramente inserida dentro da esfera do pessoal e do psicológico.
No Oriente, é claro, existem as escolas de artes marciais e no caso específico do arco, o Kyudo. A maioria das pessoas que sabe algo a respeito de Kyudo aprendeu através do livro "A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen". O livro é sem dúvida de leitura fascinante e agradável - mas é preciso dizer, deixa uma sensação "mágica" com relação ao Zen, ao Oriente e mestres iluminados e enigmáticos... De qualquer maneira, isso não invalida o fato que realmente no Japão existem muitas atividades que se tornaram paradigmas para esse crescimento pessoal que eu estou citando. Elas são "caminhos" (em japonês "do").
No Ocidente, não temos nada parecido. Talvez, na Idade Média, nas guildas ou no treinamento que os Cavaleiros recebiam e suas iniciações em ordens religiosas e militares, como os Templários.
Isso não significa, evidentemente, que não possamos ser nosso próprio mestre e guia nesse tipo de aprendizado (na verdade, me parece até uma postura mais adulta e condizente com a história ocidental). Basta que se faça uma necessária e muito gratificante pesquisa nas fontes da nossa própria tradição cultural.
Eu, particularmente, acho que os gregos tem muito a nos ensinar. Logo de cara, existe uma fórmula na Grécia Clássica que se meditarmos tempo suficiente sobre ela, irá nos abrir todo um mundo de significados:
Realizar a sua beleza.
Os gregos tinham uma verdadeira adoração pela Beleza e a consideravam uma dádiva dos deuses (a própria palavra para "mundo" em grego significa "belo": cosmos). Essa fórmula, para mim, é o equivalente ocidental da idéia do "zen" entre os orientais - ela nos convida à excelência, a fazer algo de maneira tão perfeita e bela quanto for possível para alguém. Se mantivermos sempre essa idéia em mente nos treinos, na vida, no trabalho aos poucos iremos nos tornando mais atentos, mais sensíveis às nossas ações e atitudes - a pedra de toque será sempre o quanto de beleza eu posso trazer ou revelar naquilo que eu faço.
Assim, amarrando todos os conceitos até aqui, percebo que para mim, atualmente, o Arco cumpre exatamente essa função: a cada treino, a cada tiro enxergo mais sobre mim e extraio metáforas para a vida. Ao mesmo tempo, existe a constante vontade de me aperfeiçoar, a realizar um disparo perfeito que traduza com exatidão quem eu sou ou a unidade entre eu e o arco.
Não é fácil.
Mas os gregos também já tinham pensado nisso e sintetizaram essa experiência em outra frase:
Tudo que é belo, é difícil.
No arco e na vida.

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