Sexta-feira, Dezembro 15, 2006

Encantamento

Tenho observado, com grande deleite devo confessar, que as pessoas quando vêem uma foto minha com o arco ou sabem que sou arqueiro ou, ainda mais intensamente, quando vêem um arco pessoalmente, ficam profundamente curiosas e encantadas com o fato.

É como se de repente uma porta pra alguma coisa mágica e diferente fosse aberta. Talvez venha à mente idéias e imagens de outros tempos (algo como "O que alguém faz em pleno século XXI com um arco na mão?"). Seja como for, ninguém fica indiferente.

As pessoas se agrupam ao redor de quem segura um arco - algumas tentam tocá-lo, puxar a corda, outras mantém uma reverente distância. Mas em todos os rostos, algo brilha e os sorrisos fluem tão abertamente quanto as perguntas.

Alguns objetos (arcos, espadas e etc) parecem mesmo agrupar ao redor de si tamanha quantidade de símbolos e associações que mesmo sem ser jungiano há que se desconfiar da existência de arquétipos e inconsciente coletivo!

Da minha parte, acho isso delicioso.
Nunca tinha visto tal reação.

O arco está associado a tantas coisas - indo desde os primórdios da civilização humana, há cerca de 35 mil anos passando por deuses luminosos como Apolo e Krishna, por foras-da-lei como Robin Hood, chegando aos nossos dias onde o arco se tornou uma peça altamente sofisticada de tecnologia. Ao mesmo tempo, tudo nele é muito sensual - conectado ao aqui e agora: peso, tensão da corda, postura, concentração. O arco encanta aos sentidos - mas também aponta para objetivos mais além do imediato. O próprio ato de disparar uma flecha e acertar o alvo já foi usado diversas vezes como metáfora para o crescimento interior.

Existe uma "gravidade semântica" ao redor do arco que é difícil negar.
E entramos em contato com ela toda vez que, encarando um alvo, disparamos.
O que se atinge, seguramente, é muito mais...
É encantamento!

Quinta-feira, Dezembro 14, 2006

Por que o Arco?

Qualquer atividade, quando feita com a atitude mental correta, pode se tornar um veículo ou um caminho para o auto-aperfeiçoamento e descoberta pessoal.

Virtualmente qualquer coisa que exija dedicação, tempo, superação se torna rica em metáforas e símbolos para o crescimento interior.

Claro que eu não estou falando aqui de "revelações", "cultos" ou nada místico ou religioso. Não se trata disso. A coisa é mais "modesta" e seguramente inserida dentro da esfera do pessoal e do psicológico.

No Oriente, é claro, existem as escolas de artes marciais e no caso específico do arco, o Kyudo. A maioria das pessoas que sabe algo a respeito de Kyudo aprendeu através do livro "A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen". O livro é sem dúvida de leitura fascinante e agradável - mas é preciso dizer, deixa uma sensação "mágica" com relação ao Zen, ao Oriente e mestres iluminados e enigmáticos... De qualquer maneira, isso não invalida o fato que realmente no Japão existem muitas atividades que se tornaram paradigmas para esse crescimento pessoal que eu estou citando. Elas são "caminhos" (em japonês "do").

No Ocidente, não temos nada parecido. Talvez, na Idade Média, nas guildas ou no treinamento que os Cavaleiros recebiam e suas iniciações em ordens religiosas e militares, como os Templários.

Isso não significa, evidentemente, que não possamos ser nosso próprio mestre e guia nesse tipo de aprendizado (na verdade, me parece até uma postura mais adulta e condizente com a história ocidental). Basta que se faça uma necessária e muito gratificante pesquisa nas fontes da nossa própria tradição cultural.

Eu, particularmente, acho que os gregos tem muito a nos ensinar. Logo de cara, existe uma fórmula na Grécia Clássica que se meditarmos tempo suficiente sobre ela, irá nos abrir todo um mundo de significados:

Realizar a sua beleza.

Os gregos tinham uma verdadeira adoração pela Beleza e a consideravam uma dádiva dos deuses (a própria palavra para "mundo" em grego significa "belo": cosmos). Essa fórmula, para mim, é o equivalente ocidental da idéia do "zen" entre os orientais - ela nos convida à excelência, a fazer algo de maneira tão perfeita e bela quanto for possível para alguém. Se mantivermos sempre essa idéia em mente nos treinos, na vida, no trabalho aos poucos iremos nos tornando mais atentos, mais sensíveis às nossas ações e atitudes - a pedra de toque será sempre o quanto de beleza eu posso trazer ou revelar naquilo que eu faço.

Assim, amarrando todos os conceitos até aqui, percebo que para mim, atualmente, o Arco cumpre exatamente essa função: a cada treino, a cada tiro enxergo mais sobre mim e extraio metáforas para a vida. Ao mesmo tempo, existe a constante vontade de me aperfeiçoar, a realizar um disparo perfeito que traduza com exatidão quem eu sou ou a unidade entre eu e o arco.

Não é fácil.

Mas os gregos também já tinham pensado nisso e sintetizaram essa experiência em outra frase:
Tudo que é belo, é difícil.

No arco e na vida.

Quarta-feira, Dezembro 13, 2006

Foco!

A flecha solta no ar, escreveu o poeta hindu Tagore, grita louca de alegria: Sou livre! Sou livre! Engana-se: já teve seu destino traçado pelo arqueiro.

Bem, tirando as inegáveis reflexões filosóficas que se podem tirar desta frase, fica evidente que se Tagore fosse um arqueiro, teria pensando um pouco mais antes de escrever tal frase.

Não basta apenas que o arqueiro deseje, queira ou mire no alvo - existe uma dezena de outros fatores que mudam a trajetória da flecha. Na verdade, tratam-se de detalhes.

A respiração, a postura, a largada, os ombros, o vento - tudo isso se soma à trajetória da flecha levando-a, muitas vezes, para destinos não desejados pelo arqueiro (o pior deles, é claro, é o limbo conhecido como "M" - errar o alvo!).

O arco e flecha é a arte da repetição, da constância, da absoluta concentração ao momento presente.

"Foco", em uma palavra.

É preciso que corpo e mente estejam juntos.
Mais do que algum conceito metafísico ou filosófico trata-se do mais absoluto pragmatismo. Trata-se de um verdadeiro sistema cibernético - onde a unidade arqueiro / arco / alvo é a única coisa que existe.

Ontem eu pude testar esses conceitos pela enésima vez - não só pela parte técnica (tiros grupados que de repente começam a se dispersar - o que me fez rever lentamente cada passo do tiro, a prestar atenção a detalhes) mas também por aquilo que não parava de rodar pela minha mente: pensamentos, idéias, frases tudo que simplesmente não precisava estar ali...

Então aos poucos fui me conscientizando disso - de quão pouco estamos presentes às coisas, às atividades, ao que temos nas mãos.

Foco!

Meus tiros melhoraram... mas ainda fiquei na barreira dos 514...

Confesso que está me dando alguma ansiedade de mudar, avançar, sair desse ponto onde estou parado há meses. Claro que confio nas decisões do Fernando e do Sato (meus treinadores) de manter no básico com o novo arco pelo final deste mês, mas...

Enfim - outra lição do arco que se estende para a vida.